Nossos Cães Estão Vivendo Mais e Precisamos Ficar Atentos a DCC Canina
Por: João - 30 de Março de 2026
A disfunção cognitiva canina (DCC) é uma síndrome neurodegenerativa que afeta cães idosos, caracterizada por alterações progressivas nas funções cognitivas, como memória, aprendizagem, percepção e consciência do ambiente. A condição é considerada análoga à Doença de Alzheimer em humanos, apresentando alterações cerebrais semelhantes, incluindo deposição de proteínas anormais e degeneração neuronal.
Sintomas
Os sinais clínicos da disfunção cognitiva canina geralmente surgem de forma gradual e tendem a se intensificar com o tempo. Os sintomas são frequentemente agrupados pelo acrônimo DISHA, que representa:
- Desorientação: o cão pode parecer perdido em ambientes familiares, ficar preso em cantos ou não reconhecer locais habituais da casa.
- Interações sociais alteradas: diminuição do interesse em interagir com tutores ou outros animais, ou, em alguns casos, aumento da dependência.
- Alterações no ciclo sono–vigília: cães podem dormir mais durante o dia e apresentar inquietação ou vocalização à noite.
- Higiene inadequada: perda de hábitos de eliminação previamente aprendidos, levando a urinar ou defecar em locais impróprios.
- Alterações na atividade: redução da exploração do ambiente ou aumento de comportamentos repetitivos, como andar em círculos.
Além desses sinais principais, podem ocorrer ansiedade, irritabilidade, diminuição da resposta a comandos e dificuldade em aprender novas tarefas.
Diagnóstico
O diagnóstico da disfunção cognitiva canina é clínico e por exclusão, pois não existe um teste único que confirme a doença. O médico-veterinário avalia:
- Histórico comportamental detalhado fornecido pelo tutor.
- Exame físico e neurológico para identificar possíveis alterações.
- Exames laboratoriais (hemograma, perfil bioquímico, função tireoidiana) para descartar outras doenças sistêmicas.
- Exames de imagem, como tomografia computadorizada ou ressonância magnética, que podem auxiliar na exclusão de tumores, inflamações ou outras patologias cerebrais.
Questionários comportamentais padronizados também podem ser utilizados para avaliar o grau de comprometimento cognitivo.
Tratamentos
Embora a disfunção cognitiva canina não tenha cura, diversas estratégias podem ajudar a retardar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida do animal.
Tratamento farmacológico
- Uso de medicamentos que aumentam a atividade de neurotransmissores cerebrais, como a Selegilina.
- Fármacos para controlar ansiedade, distúrbios do sono ou alterações comportamentais associadas.
Terapias nutricionais
Dietas enriquecidas com antioxidantes, ácidos graxos ômega-3, vitaminas E e C e L-carnitina podem auxiliar na proteção neuronal e na função cognitiva.
Enriquecimento ambiental e estímulo cognitivo
- Manter rotinas previsíveis.
- Introduzir brinquedos interativos e atividades de estimulação mental.
- Estimular exercícios físicos leves e regulares.
Manejo comportamental
Adaptações no ambiente doméstico (iluminação noturna, acesso fácil a áreas de descanso e alimentação) ajudam a reduzir ansiedade e desorientação.
Considerações finais
A disfunção cognitiva canina é uma condição relativamente comum em cães idosos, mas muitas vezes subdiagnosticada por ser confundida com “envelhecimento normal”. O reconhecimento precoce dos sinais e o acompanhamento veterinário são fundamentais para implementar estratégias de manejo que prolonguem o bem-estar e a qualidade de vida do animal.
Referências bibliográficas
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